
Um estudo clínico brasileiro começou a recrutar voluntários para avaliar se uma única cápsula, reunindo medicamentos usados contra pressão arterial e colesterol, pode reduzir o risco de AVC e de declínio cognitivo em pessoas que ainda não tiveram essas doenças.
Chamado PROMOTE, o ensaio pretende acompanhar 8.518 adultos de 50 a 75 anos durante três anos. A pesquisa é coordenada pela neurologista Sheila Martins, do Hospital Moinhos de Vento, em parceria com o Ministério da Saúde por meio do Proadi-SUS e com a World Stroke Organization. O estudo está registrado no ClinicalTrials.gov sob o número NCT05155137.
Por que isso importa
AVC e demência compartilham fatores de risco modificáveis, como pressão alta, sedentarismo, tabagismo e alimentação inadequada. A proposta da polipílula é facilitar a prevenção, mas somente o ensaio poderá dizer se a estratégia é eficaz e segura para esse grupo.
O que a cápsula reúne
A formulação investigada combina valsartana, para ajudar no controle da pressão; anlodipino, outro anti-hipertensivo; e rosuvastatina, usada para reduzir o colesterol. No protocolo, as doses previstas são de 80 mg, 5 mg e 10 mg, respectivamente. Em caso de eventos adversos, o anlodipino pode ser ajustado para 2,5 mg.
A ideia não é criar um comprimido “milagroso”, mas testar se a combinação melhora a adesão e controla fatores de risco em pessoas com risco cardiovascular baixo a moderado. A polipílula é comparada com placebo, e o estudo também avalia se o aplicativo Stroke Riskometer, voltado a mudanças de estilo de vida, acrescenta benefício ao cuidado habitual.
Como o ensaio foi desenhado
O protocolo prevê um estudo de fase 3, multicêntrico, randomizado, controlado por placebo e com mascaramento dos participantes, profissionais e avaliadores dos desfechos. Os voluntários serão distribuídos entre quatro grupos: polipílula com aplicativo; placebo com aplicativo; polipílula com cuidado habitual; ou placebo com cuidado habitual.
Podem ser elegíveis adultos sem histórico de AVC, ataque isquêmico transitório ou doença cardiovascular, com pressão sistólica entre 121 e 139 mmHg e pelo menos um fator de risco relacionado ao estilo de vida. O registro exclui, entre outros casos, pessoas com diabetes, hipercolesterolemia ou uso de determinados medicamentos cardiovasculares. A confirmação depende da equipe de pesquisa.
Atenção
O PROMOTE ainda é uma pesquisa em andamento. Não há resultados finais que comprovem redução de AVC ou demência, e a formulação estudada não deve ser usada por conta própria nem confundida com uma recomendação médica ou com um produto preventivo já disponível.
O que será medido
Os principais desfechos previstos são a incidência de AVC — isquêmico ou hemorrágico — e a taxa de declínio cognitivo ao longo de três anos. O protocolo também acompanha infarto, morte cardiovascular, pressão arterial, colesterol, qualidade de vida, fatores de risco e custos do cuidado.
Antes da etapa ampliada, uma fase inicial em unidades de saúde de Porto Alegre avaliou viabilidade, tolerabilidade, adesão e alterações em pressão e risco cardiovascular. O artigo de protocolo publicado em 2025 descreve essa etapa, mas não apresenta um resultado final capaz de demonstrar benefício clínico da polipílula.
O que vem agora
O estudo deverá seguir até o fim da década, conforme a previsão registrada na plataforma internacional. Se a combinação reduzir eventos sem comprometer a segurança, os resultados poderão orientar futuras estratégias de prevenção na atenção primária. Até lá, o valor da pesquisa está em responder uma pergunta ainda aberta: se simplificar o tratamento preventivo também melhora os resultados de saúde em pessoas que não se consideram doentes.
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