A saúde de um bebê começa muito antes do teste de gravidez positivo. Uma pesquisa pioneira realizada pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) revelou que a alimentação do pai, especificamente o consumo de alimentos ultraprocessados, tem o poder de alterar a expressão genética dos filhos antes mesmo da concepção.
Por que isso importa
Historicamente, as orientações de saúde pré-natal focaram quase exclusivamente na mãe. Este estudo muda o paradigma ao provar que o estilo de vida do pai é igualmente crítico, impactando o risco de doenças cardiovasculares e metabólicas na criança ao longo de toda a vida adulta.
O Peso da Dieta Paterna
O estudo, publicado na prestigiada revista científica Nutrition Research, analisou grupos de pais, mães e recém-nascidos atendidos na rede pública de saúde. Os resultados foram contundentes: quanto maior o consumo de ultraprocessados (como salgadinhos, refrigerantes e embutidos) pelos homens, maior o peso ao nascer e maior o acúmulo de gordura na coxa e na região abdominal (suprailíaca) dos bebês.
A Dra. Daniela Sartorelli, coordenadora do estudo e professora da FMRP-USP, destaca que este é o primeiro trabalho em humanos a demonstrar essa associação direta. "A alimentação paterna importa muito para a saúde do bebê, e pouco se fala sobre isso no planejamento familiar", afirma a pesquisadora.
O Mecanismo: Epigenética e o Gene IGF-II
A explicação científica reside na epigenética. Dietas ricas em ultraprocessados criam um ambiente pró-inflamatório no organismo masculino, o que pode afetar a qualidade dos espermatozoides e modificar a expressão de genes transmitidos ao feto.
- Metilação: O consumo de químicos e aditivos pode "ligar" ou "desligar" partes do DNA.
- Gene IGF-II: Responsável pelo crescimento fetal, este gene é expresso exclusivamente a partir da cópia herdada do pai.
- Transmissão: As alterações metabólicas do pai são "programadas" no esperma e refletidas no desenvolvimento do bebê.
Diferença entre Pais e Mães
Curiosamente, o estudo observou efeitos opostos na dieta materna. Enquanto o consumo paterno de ultraprocessados elevou o peso dos filhos, a ingestão desses mesmos alimentos pelas mães no início da gestação foi associada a bebês com menor peso, altura e circunferência da cabeça.
Segundo Mariana Rinaldi Carvalho, coautora do estudo e bolsista da FAPESP, isso ocorre porque os ultraprocessados são pobres em nutrientes essenciais para a formação da placenta, prejudicando o desenvolvimento fetal direto via mãe, enquanto no pai o efeito é programático e genético.
O que vem agora
Os pesquisadores defendem que as políticas de saúde pública e o planejamento familiar incluam orientações dietéticas rigorosas para os homens que desejam ser pais, pelo menos três meses antes da concepção, período necessário para a renovação completa dos espermatozoides.
Referência: Carvalho, M. R., et al. (2026). "A higher paternal ultra-processed food consumption is directly associated with parameters of neonatal anthropometry". Nutrition Research. DOI: 10.1016/j.nutres.2026.000552.
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